O Evangelho de Marcos e uma resposta para a pergunta: "Quem é Jesus Cristo?"

O Evangelho de Marcos e uma resposta para a pergunta: "Quem é Jesus Cristo?" 


Já se passaram cerca de 2000 anos, e ainda se faz, numa geração pós-moderna, a mesma pergunta que muitos faziam lá nos idos do século 1... "quem é Jesus Cristo?" ou, em outras palavras: "quem é esse Jesus, chamado Cristo?" Talvez a diferença está nas motivações dos interlocutores da questão: provavelmente, no primeiro século, a questão era movida por interesse objetivo e histórico, ou seja, procurava-se entender quem teria sido o ser humano que foi capaz de mover outros seres humanos num movimento de fé que avançava pelo mundo mediterrâneo da época; enquanto que atualmente, talvez, as motivações sejam outras, voltadas para uma perspectiva subjetiva e fenomenológica, ou seja, muitos reformulam essa pergunta em busca de resposta para suas inquietações pessoais, tornando a questão mais próxima disso: "quem é Jesus Cristo para mim?"

O Novo Testamento é um documento cristão que resulta de deliberações dos líderes da Igreja Cristã dos primeiros séculos num longo processo de construção e definição do Cânon, escolhendo livros considerados sagrados, inspirados, em detrimento de outros tidos como não sagrados, não inspirados, apócrifos. Após um longo período de deliberações coletivas, os 27 livros que formam hoje o Novo Testamento foram escolhidos. Dentre os 27 livros considerados sagrados e inspirados, ou canônicos, um dos gêneros textuais mais destacados é aquele que foi definido como "evangelhos". São 4 Evangelhos inseridos no Novo Testamento. Há outros textos de mesma natureza fora do Novo Testamento, porém foram considerados não-inspirados. 

A palavra grega para "evangelho" significa "boas novas, boas notícias, boa mensagem". Inicialmente, nota-se pelas cartas paulinas, que são mais antigas que os 4 Evangelhos, que o termo evangelho era utilizado para se referir às boas novas anunciadas por Jesus e por seus seguidores. O evangelho era a mensagem, a pregação. Contudo, a partir da metade do século 1 foi necessário escrever-se sobre o próprio Jesus e não mais somente sobre o que Ele teria dito, ensinado ou deixado como uma mensagem. Além de se conhecer a "boa mensagem" que Jesus Cristo teria deixado através dos seus seguidores, passou-se a questionar-se "quem foi esse Jesus Cristo?", ou, ainda, "Como essa boa mensagem foi gerada pelo próprio Jesus?"

Quando as comunidades cristãs do primeiro século começaram a questionar quem era Jesus, surgiu a necessidade de se escrever sobre ele. Porém, não foram produzidas biografias de Jesus, não há nenhum livro bíblico com natureza biográfica a respeito de Jesus de Nazaré. O que se produzia naquele momento era uma boa mensagem, um evangelho! Os 4 Evangelhos continuam sendo evangelho! Ou seja, continuam sendo "boa mensagem, boa notícia, boas novas". A diferença é a forma como o evangelho é anunciado nos Evangelhos. Agora se anuncia a mensagem como narrativa e discursos, intercalados, seguindo um enredo e um programa literário, cujo personagem principal é o próprio Jesus Cristo.

São quatro, os evangelhos canônicos. Apesar de estarem muito relacionados e apresentarem muitas semelhanças, eles possuem também muitas diferenças! A princípio, faz-se necessário diferenciar os 3 primeiros (na ordem apresentada no Novo Testamento) em relação ao 4º Evangelho. Os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas são chamados de Evangelhos Sinóticos, pois apresentam muitas semelhanças entre eles. Enquanto o Evangelho de João é visto separadamente em função de suas especificidades. Contudo, mesmo entre os Sinóticos em meio às muitas semelhanças estruturais e textuais são notórias as diversas diferenças, especialmente no que diz respeito às intenções autorais perceptíveis na seleção e adaptação de textos semelhantes em contextos divergentes ou apresentação de textos semelhantes com alterações redacionais entre eles. Em outras palavras, muitas vezes textos presentes nos três Evangelhos ou em dois deles são utilizados de maneira diferente por cada um deles. Isso revela suas intenções.

Qual a intenção ou intenções do Evangelho de Marcos? O Evangelho de Marcos é, com muita probabilidade, o mais antigo dentre os quatro evangelhos. Há diversos indícios disso. Uma das evidências é o fato de que cerca de 90% do texto de Marcos ser encontrado direta ou indiretamente nos outros dois sinóticos. Isso revela que Mateus e Lucas conheciam o texto de Marcos e deve ter utilizado o mesmo na composição de suas respectivas obras. Uma outra característica interessante que corrobora o pioneirismo de Marcos é, justamente, a elucidação da sua intenção. Dentre os muitos objetivos que podem ter norteado a escrita de Marcos, diante de possíveis intenções, no plural, não se pode deixar de notar uma intenção evidente: responder a uma questão primordial. Naquela altura dos meados do primeiro século, depois de uma geração de tradições orais a respeito da pessoa e dos ensinos de Jesus de Nazaré, as comunidades questionavam: quem foi/é Jesus Cristo? E numa leitura atenta do Evangelho de Marcos, percebe-se nitidamente que o autor pretende oferecer uma resposta para essa questão fundamental.

É possível notar ao longo de todo o Evangelho, o escritor respondendo à questão. Na abertura do livro é dito que o texto que se segue trata-se do início das boas novas de Jesus Cristo, o Filho de Deus. E no encerramento, as mulheres estão buscando a Jesus, e a boa nova anunciada a elas é que ele será visto no seio da comunidade reunida na Galileia. Em outras palavras, respectivamente, Marcos está dizendo: "Vou escrever sobre Jesus e sua mensagem" e "Sabendo, agora, quem é Jesus, basta busca-lo que encontrarão... Ele está vivo em nosso meio". Entre a introdução e a conclusão, a questão a ser respondida foi "Quem era/é Ele?". Então, nesse sentido, a estrutura de Marcos segue o esquema: "Vou escrever para vocês sobre Jesus e sua boa nova" - "Esse é o Jesus Cristo, Filho de Deus, que estou falando" - "Sabendo quem Ele é, podem encontrá-lo agora, pois Ele está vivo"

Diante do entendimento dessa intenção primordial do livro de Marcos, dois textos se apresentam de maneira muito interessante: Mc 4.41 e Mc 15.39. No primeiro, os discípulos questionam "Quem é este?"; no segundo, o centurião responde "verdadeiramente este homem era o Filho de Deus". A questão fundamental do Evangelho de Marcos está posta! Diante dos feitos poderosos de Jesus Cristo e sua palavra, os expectadores admirados questionam: quem é este!? Por outro lado, diante da cruz e de sua palavra vencedora, o expectador que olha para Ele reconhece sua verdadeira identidade: "Este é o Filho de Deus!".

Um estudo aprofundado desses textos, cada um em seus respectivos contextos, ou ambos relacionados, pode trazer à luz muitas verdades e aplicações. Mas, detendo-se na questão em foco, que é a intenção fundamental do autor do Segundo Evangelho, pode-se extrair significativas mensagens. Quando Marcos coloca a questão fundamental no contexto da narrativa sobre o apaziguamento da tempestade, talvez ele queira chamar a atenção para o fato de que é comum atentar-se para Jesus quando Ele realiza coisas assustadoras, milagrosas, maravilhosas. O mundo mediterrâneo estava sendo sacudido pelos milagres e manifestações poderosas através do  povo de Jesus, assim muitos se viravam para Ele e se interessam em saber quem Ele era... a palavra de poder e a realização de algo espantoso chama a atenção, desperta a curiosidade e o temor, mas ainda não revela a verdadeira identidade de Jesus Cristo. Na nuvem de glória e poder apenas se vê as costas de Deus. A verdadeira face de Deus está refletida não na glória do mar da Galileia mas, sim, na glória da Cruz do Calvário! Atualmente, diante de propagação de mensagens triunfalistas e da negação da dor, cada vez mais se apela para um Jesus Cristo que seja o Filho de Deus poderoso ao realizar maravilhas, curar feridas e exaltar seus discípulos. Porém, quando Marcos intenta responder a questão fundamental da natureza e identidade do Filho de Deus, ele não apresenta somente a face que interessa a maioria das pessoas, no passado e no presente, ao contrário, o autor sagrado vai além e confronta a todos quando coloca a cruz como resposta mais adequada e empática, desde que entende-se que no Calvário o poder se aperfeiçoa na fraqueza, o amor vence o ódio e a vida vence a morte! 

Portanto, se o que se quer saber é a verdadeira identidade de Jesus Cristo, deve-se estar ao lado do centurião aos pés da Cruz. É ali que verdadeiramente se enxerga a face de um Deus que é Amor, que perdoa pecados, que sara feridas mais profundas, que exalta o ser humano na sua condição de criação especial de Deus, que restaura a relação do ser humano com seu Criador e com seus semelhantes, que anuncia um mundo melhor, governado pela ética do reino de Deus, que cria uma comunidade de crentes nessa mesma fé e esperança. É ali, aos pés da cruz que a lógica de Deus é revelada, e está muito além da capacidade humana de conceber o conceito de "filho de Deus". O Filho de Deus é o Servo de Deus, é Filho do Homem, é o Amigo mais chegado, é o Irmão que torna os seus companheiros e companheiras herdeiros com Ele da glória do Pai. É preciso conhecer e reconhecer a verdadeira identidade de Jesus revelada na intenção do Evangelho de Marcos para que se possa construir comunidades ao redor da Cruz!

Por Fábio Salvador Santos
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